NOVENAS

 

O meu avô era devoto de Santa Luzia e para ela, costumava organizar novenas. A intenção do velho patriarca poderia até ser de ordem religiosa, mas o fato é que aquelas novenas eram verdadeiros eventos sociais.

Naqueles dias a casa recebia um tratamento especial. Casa limpa com espanador e pano molhado, terreiros varridos com vassoura de vassourinhas e, principalmente flores enfeitando os santos. Um capricho especial para a grande homenageada. A santa protetora dos olhos. E era um corre-corre que só vendo. Tia pra lá, avós para cá. Sai da frente menino, não atrapalha quem está trabalhando. Os tios ficavam no quarto ou no alpendre, afinando o violão, ensaiando as músicas que seriam cantadas depois da novena, junto com os amigos e namoradas.

Naquelas noites vestíamos sempre nossas melhores roupas; as mais novas, devidamente limpas e passadas a ferro. Durante pelo menos uma semana, não falávamos em outro assunto. Antes e depois do evento acontecer.

Logo no começo da noite, pacotes de bolacha eram separados, bolos cortados, para serem servidas com café, logo após o final da novena. Daí a pouco começavam a chegar os convidados: parentes, amigos, vizinhos de perto e de longe. Velhos, crianças, moços e moças, casais de respeito, outros nem tanto. O alpendre ficava apipado. As ladainhas aconteciam na sala. Muita reza, muita cantoria. Beatas com novenários e terços nas mãos. Os rituais católicos se estendiam por cerca de uma hora e meia. Para nós, crianças, tudo aquilo não durava mais do que alguns minutos. Queríamos mais.

Os melhores momentos vinham sempre depois da devoção. Café com biscoito e bolo, muita conversa de adultos para ouvir; fofoca para repassar, namoros para assistir, romances secretos para imaginar e ter com o que sonhar mais tarde. Um paraíso de novidades.

Depois que o último convidado saia, era hora de tentar dormir. Como se acalmar com a cabeça rodando, repassando, como um filme, tudo que havia acontecido na novena de Santa Luzia? Os primeiros raios de sol sempre me pegavam ainda no começo do sono da noite passada. Aí, já era tarde.  A minha avó já preparava o pão de milho para o café, meu avô resmungava as providências do dia, enquanto meus irmãos já estavam de pé, gritando as alegrias de catar as piúbas dos cigarros, jogadas pelos adultos, na noite passada, para fumar e brincar de gente grande. Depois ficavam tontos pelo resto do dia. Somente meus tios dormiam a sono solto, durante quase toda a manhã. Cansados, ressacados das alegrias da noite passada. Por causa deles, a minha avó tentava baixar o tom da nossa contenteza: -falem baixo, não estão vendo que tem gente dormindo?

Demorava muito para nossas cabecinhas se aquietarem. Dias, semanas, muito tempo… Começávamos a planejar o que faríamos no ano seguinte, lá no meu velho e querido torrãozinho, Lagoa de Velhos. Santa Luzia que nos aguardasse.

Ivaíta Souza

Novenas

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